BARCARENA, ALÉM DOS SETENTA E QUATRO ANOS


BARCARENA, ALÉM DOS SETENTA E QUATRO ANOS
BARCARENA, ALÉM DOS SETENTA E QUATRO ANOS

Por Prof. Dr. Luiz Antonio Valente Guimarães (*)

É certo que hoje, data em que se comemora o aniversário de Barcarena, celebramos o dia 30 de dezembro de 1943. Naquele ano, enquanto o estampido das bombas e rajadas de tiroteios corriam no Velho Mundo durante a Segunda Guerra Mundial, aqui deste lado do Atlântico era assinado o Decreto Lei nº 4.505, que emancipava do município de Belém o distrito de Barcarena, criando assim, o Município de Barcarena. Este ato assinado pelo então Interventor Federal o coronel Joaquim de Magalhães Cardoso Barata e redigido pelo seu secretário Joaquim Guilherme Lameira Bittencourt, foi publicado no Diário Oficial do Estado no dia 4 de janeiro de 1944.

A efeméride, portanto, tornou-se o marco simbólico de um novo tempo para cidade, a criação do Município Emancipado de Barcarena. A partir de então, o município poderia legalmente, criar com certa autonomia, suas instituições e organismos de gestão próprios. Este é portanto, o ato que se comemora no dia de hoje.

Porém, é preciso também neste dia, recordar que Barcarena antes de se tornar um município autônomo, passou por fases, por assim dizer, de sua história, igualmente significativas.

Antes mesmo do primeiro europeu pisar no solo amazônico, do qual faz parte as terras de Barcarena, esse lugar era povoado pelas populações indígenas. Por aqui moravam em suas aldeias, transitavam pelos rios e matas deixando suas marcas. Singravam suas canoas feitas de troncos de árvores nas águas turbulentas pelo canal de gente malvada – dos Carapijó, ficando mais tarde Carnapijó, por exemplo como nome daquele tempo.

Por volta do final do século XVII, as terras dos indígenas foram ocupadas pelos europeus. Na fronteira da baia do Marajó, assentava-se missão religiosa de Mortigura, na atual Vila de Conde. No estreito canal da aldeia dos Gibirié, recebia em forma de sesmaria, doada ao português Francisco Rodrigues Pimenta, uma légua de terras, criando a Fazenda Gibirié, primeira povoação de Barcarena, localizada na atual vila de São Francisco Xavier.

Em 1709, o proprietário da fazenda Gibirié, fazia a doação destas suas terras aos padres Jesuítas com a condição de não as vender. Ali surgia em torno de uma igreja dedicada a São Francisco Xavier, a Missão dos Gibirié. Conforme assinala o Catálogo deste Colégio de Santo Alexandre, seus bens, oficinas... de 1710, registra-se que naquela missão dos inacianos haviam habilidosos escultores em madeira, como os índios Marçal, Ângelo e Faustino, que além das peças existentes na Igreja de missão religiosa em que viviam, também deixaram seus trabalhos na Igreja de Santo Alexandre em Belém do Pará.

No século XVIII, porém mudanças vindas da Europa interferiram na vida da Missão dos Gibirié. Em Portugal, após assumir o trono lusitano em 1750, o rei D. José I, nomeou para seu primeiro Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, que mais tarde ficaria famoso como o Marquês de Pombal. Este lusitano, empreendeu uma reforma na administração colonial portuguesa que resultou na expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759. Por este ato, os bens da Companhia de Jesus passaram para o controle do governo Português e as missões religiosas assim como seus habitantes tiveram seus nomes “aportuguesados”.

Foi assim que a missão dos Gibirié passou a ser denominada de freguesia de São Francisco Xavier de Barcarena, em homenagem a uma cidade dos arredores de Lisboa, que igualmente possui o nome de Barcarena. Por sinal, esta toponímia, ali foi deixada pelos mouros quando invadiram a península Ibérica, e de acordo com a obra “Vestigios da Lingoa Arábica em Portugal”, escrito em 1830 pelo frei João de Sousa, o verbete Barcarena é composto dos termos Barr [terra] carra [habitar] e do afixo na [nós], que significava a terra de nossa habitação, na origem árabe.

Como freguesia, a cidade de Barcarena permaneceu por todo o resto do século XVIII e o século XIX. Em 1833, as terras do atual município de Barcarena, estavam divididas em quatro dos 24 distritos que faziam parte do termo do Município de Belém. Havia o 1º distrito da Sé, que compreendia a fronteira da Ilha das Onças; o 6º distrito da freguesia de São Francisco Xavier, que correspondia que ia da “ponta de baixo” da ilha das Onças até a vila de São Francisco; o 7º distrito de Aicaraú e o 8º distrito de Vila do Conde e Beja.

Assim, neste breve percurso, podemos ver que antes de Barcarena ser um município, foi uma aldeia indígena, missão religiosa, freguesia e finalmente distrito do município de Belém. Ao longo destes mais de três séculos de sua existência, por essas terras transitaram pessoas das mais diferentes origens e naturalidades. Índios, negros africanos, como escravos ou resistindo a esta forma de trabalho. Portugueses, italianos, japoneses, franceses entre outros estrangeiros, cada qual produzindo suas influências culturais na cidade. E, mais recentemente, para estas terras migraram milhares de indivíduos das mais variadas porções do Brasil para atuar nos Grandes Projetos. Barcarena é portanto um cidade multicultural com 74 anos de emancipação, porém com mais de três séculos de histórias para serem contadas.

(*)É professor dr. em história pela UFPa, autor do “Subsídios para um Estudo da História de Barcarena” (1999), “Memória & Cotidiano: retratos da vida cotidiana em Barcarena”; “Só de Raiva: Impressões sobre a vida do Poeta Zenir Campos” e “Fragmentos de Memórias: do matuto Tibúrcio ao Poeta Zenir Campos”.